terça-feira, 9 de agosto de 2011

Supernova

A metrópole é o turbilhão da vida. Não por ventura das horas cálidas do dia, extasie-me por conta própria. Quarto andar. Janela. Bem ao fim do horizonte, avistei um helicóptero dos mais velozes à perfurar a atmosfera, rasante cheio de razão. Enquanto a imensa ave mecânica rasgava o céu, coloque-me lá. Imaginei-me voando, ali dentro daquela caixa - pesada e metálica. Naquele instante, minha janela deixou de ser no quarto andar e passou a ser livre aos ares, passou a voar! E confesso, o céu é lindo e deixa a terra mais linda ainda vista lá de cima. As pessoas aformigadas, os prédios arborizados, os carros acarrapatados. Silêncio, fluidez. A unica voz, é a de Deus. Voar é uma maravilha.

Quando em cima, avistei às flores, mínimas, porém de intensa coloração. Imaginei-me abelha. Reduzi-me em matéria, mas não em alma. Adentrei um jardim. Naquele instante, minha janela deixou de ter os grandes céus e passou a cultivar paisagens um pouco mais baixas, um tanto mais ricas. Quando se és abelha, pode-te ser pequeno, porém pode-te ser gigante! É possível fazer acontecer: polinizei copos de leite, sem derramar uma única gota de esperança.  E a natureza é fantástica, e o processo da vida é inacreditável e isso e aquilo.

Enquanto sabiamente planeava das mais nobres pétalas, na melodia das sagazes asas de abelha, espreitei o astro rei: quis-me mais, muito maior. Quis-me quente. Quis-me  luz. Quis-me. Tornei-me então Sol, convidado especial de minha história. Naquele instante, minha janela deixou de ter pequenas paisagens e passou a vigiar o espaço todo. E a vigília - para quais imaginam tédio - foi esplendorosa, com todos os esplendores que um estrela pode propiciar. Em supernova clareei o imenso vago, tal qual deserto sem areia, tal qual oceano sem água. Em supernova clareei o estômago, que em prantos clamava pelo amor da vida. Em supernova, clareei de longe dois pequenos olhos. Esses olhos mansos refletiram minha luz e se tornaram os novos sóis.

Ao deparar-me com tamanha emancipação de luz e calor, abandonei o plano de ser Sol. Quis ser qualquer coisa, qualquer coisa capaz de se locomover. Tudo o que eu queria era encontrar esses olhos. Saí correndo, com as pernas batendo a gravidade, pulando de planeta em planeta. Cá cheguei de novo. Cá virei abelha, cá virei piloto e enfim virei-me. Naquele instante, minha janela voltou ao quarto andar.

A diferença agora é que - você pode não ter sentido, mas eu estive com você.

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