sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Escada de Incêndio

Você sabe a grande diferença entre uma criança normal e uma criança grande? A diferença é que, quando criança comum se machuca, normalmente seu sangue escorre para fora, enquanto quando é a criança grande que se fere, é para dentro que lhe escorre este sangue. Desde que tenho tamanho o bastante para ferir-me internamente, aprendi a cultivar meu coração dentro de uma casinha de madeira, pacata, confortável, aquecida. Sabe-se naturalmente que é preciso dar-lhe segurança, vez que falamos do bem mais precioso de cada vida humana. Interessante é que esta casinha pode parecer-te apertada, mas nela é possível guardar coisas gigantes! Você já possui uma casinha dessas? Pois bem... Meu coração não é dos maiores, mas tenha certeza de que é dos mais bagunceiros: precisa de muito espaço no quarto e - não obstante - um closet somente para a coleção de artérias e sapatos. És um coração eufórico este meu, moldado quase que totalmente à mão, ao longo destes anos todos. És um coração contente e um tanto quanto irônico ás vezes. És um pouco recluso, admite-se, tanto que muitas vezes tende-se à solidão, mas isso normalmente é passageiro. És um coração esperto algumas vezes, posto que um dia foi capaz de conquistar coisas grandes, nalgumas vezes gigantes, diria. Mas é uma pena que o que lhe cabe em esperteza, cabe-lhe igualmente em burrice! Noutro dia deste verão frio, pensou em acender a lareira. Faísca para lá, faísca para cá, heis que a casinha - DE MADEIRA, ANTA! - pôs-se a transar com o fogo. E o fogo, ardente à madrugada, alastrou-se rapidamente. E em prantos, a vívida casinha passou a ser menor à cada instante. E os pulmões mandaram ventos e ventanias, e os rins mandaram chuvas e tempestades, e o cérebro até tentava lançar ali a sabedoria... mas nada disso surtiria efeito, a menos que houvesse sangue para tal. E o sangue estava todo dentro da casinha, junto ao fogo e ao coração. No imóvel havia uma escada de incêndio. Sorte para alguns. Mas francamente, gostaria que não houvesse. Gostaria mesmo. Isso porque aquele coração, em fato, não era meu... era seu! Mas ele foi embora. Fugou-se pela tal escada.

Pode ter salvado sua vida, saindo de lá apenas com alguns hematomas e escoriações adicionais, o que obviamente me deixa muito contente em parte. Mas antes tivesse sido forte o bastante para lutar até o fim ou deixar-se queimar naquela casa, como eu lutei. Como eu queimei. Como eu morri. Resta-me agora, sozinho, ressurgir das cinzas. Tal qual fênix, redescobrindo velhos sonhos como se nunca os tivesse conhecido. 

Um comentário:

  1. Lindíssimo este texto. Você está escrevendo muito bem. Parabéns filho!

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