quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Deriva


Lembro-me da aurora bem no início de algum outubro passado. O mar chacoalhava o pensamento que se perdia sobre a rotunda de um inestimável horizonte azul. O silêncio era suavemente preenchido com o cantar de algumas garças em seu baile ou balé nas nuvens, ou com o bate-lá-bate-cá da água salgada em si mesma. Deitei a cabeça sobre a maciça madeira, simbolo limítrofe entre a popa e a proa da pequena embarcação que havia em mim. Embarquei-me. Foi quando me senti também batendo em mim mesmo. Apavorei-me: notei que estava sozinho... Eu que sempre fui acostumado a sentir-me capitão, de repente vi-me marujo. De repente vi-me malvado. De repente vi-me sujo. A bússola, nobre ferramenta de outrora, estava completamente desnorteada. As velas queimavam lentamente enquanto buscavam na suavidade das horas se aproximarem de seu fim. Foi quando começou o maior maremoto já registrado em meu universo. O medo. O medo tocava meu peito, junto com toda a maleabilidade da água que, embora se perdessem no contato ao leme, traziam dor. E a dor ali ficava. E a dor ali morou. Fora de rumo, simplesmente naveguei, no ponto cego de alguma fossa interminável. Uma profundeza de contradições fizera-me experimentar a força máxima na hora errada. Hora errada. A força do maremoto fez de mim uma embarcação virada. E eu não havia conseguido encontrar o caminho. Tentei fugir, mas era eu. Fiquei. Boiei. Desapareci.

Pode ser que eu nunca tenha sido de fato um capitão, mas tenho plena certeza de que também nunca fui marujo. O destino certo era o incerto e a deriva era a verdadeira resposta. De repente vi-me mar.

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