domingo, 23 de dezembro de 2012

Blues & Vinho


O solo ecoava, titubeando fortemente por todas as paredes desse quarto. Era mais uma vez o ladrar da minha guitarra no meio da madrugada, tirando aos poucos pedaços de mim e espalhando-os por cada objeto colorido que a pudera ouvir. Sobre a mesa, uma taça. Meio cheia, meio vazia... Vi-me-na.

É quando a música vence o músico: na passagem dos acordes, derrubo-me – mas enquanto taça! - espatifo-me no chão. O barulho estragara a canção, como um furioso rugido da natureza se esfacelando. Espalhei-me em dezenas de pequenos cacos, mas curioso que confesso, dadas as condições achei interessante! Espalhado, me senti quase que onipresente (na premissa de que este pequeno quarto é todo meu mundo). Pude ver-me ali no chão finalmente como dono de todas as coisas que pudera em partes abraçar. E mais: as luzes alegres nas paredes e no teto desse cômodo fizeram-me um céu estrelado - no chão. Brilhei.

Posso estar esparramado, posso estar ali no piso, posso estar em cacos, posso estar imóvel, posso estar calado, posso estar ferrado, mas estou sorrindo. Ainda sinto-me estrelado, ainda sinto-me poeta, ainda sinto-me repleto de algo, mesmo que algo impreciso! E não experimente você tocar em uma estrela de verdade, ou ferirás queimado. E não experimente você pisar no tapete de estrelas que me tornei, ou ferirás cortado. Mas experimente me juntar os cacos, reconciliar as partes... posso não voltar a ser uma taça, posso ser outra coisa que queira.

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